The mountain Wolf


Ultra Trilhos de Almourol

08-04-2014 10:13

Sempre quis ver o Castelo de Almourol, é uma edificação cheia de história e que tem a sua particularidade de todo ele ser uma ilha, ainda os americanos não sonhavam com alcatraz e já nós tínhamos algo do género. Os seus trilhos não estavam no meu plano breve para serem corridos, contudo e a pedido da equipa decidi percorre-los.

Tudo tinha bases para ser uma bela história de mais um dia de prova, não fosse as peripécias começarem desde o início. Acordei antes das 5 horas da manhã porque mais coisa menos coisa a minha boleia passaria…espera…espera mais uma hora…espera duas horas… E até que o telemóvel toca para seguirmos (duas horas de atraso como é que chegaríamos a tempo???).

Não sequer chegado ao Porto e já tinha metido o cinto de segurança, não é que não confiasse no condutor, mas era só para cumprir as regras de transito (ai nossa senhora no que me tinha metido!!!!). O “Presidente” constantemente a ligar para saber por onde andávamos (acho que esteve às portas de algo ruim lol). A troca de roupa para equipamento foi durante a viagem, até que conseguimos chegar mesmo em cima do tiro de partida (vá três minutos antes tempo mais que suficiente para meter o dorsal).

Ainda nem conta tinha dado e já estávamos a correr (qual aquecimento ou qual alongamento depois da viagem).  Deixei-me ir na cabeça de corrida, as pernas estavam algo presas da viagem e pensei que com o tempo iriam se soltando. Após o primeiro abastecimento um arame farpado enrola-se nas pernas (toca a parar que não é para estragar a pintura), perco algum contacto com o grupo mas sem os perder de vista, ora subíamos ora descíamos, sempre por trilhos de meia encosta. Quando consigo reentrar no grupo da frente o Hélder Ferreira (grande companheiro de provas e excelente pessoa) diz-me que não se está a sentir bem que não consegue respirar devidamente, e que lhe começa a afetar a cabeça. Numa situação destas nunca o deixaria sozinho, desinteresso-me da corrida e prefiro acompanhá-lo. Sempre juntos fomos em ritmo mais lento até ao abastecimento seguinte (cerca de 4.5km mais à frente). Aí o Hélder diz que não vai continuar e que vai para a partida que desistia da prova porque não se encontrava bem. Perante isto eu continuo a prova, “já que não consigo agora lutar pela frente da corrida pelo menos vou aproveitar para treinar, e claro, tenho que ir ver o Castelo que foi para isso que cá vim”.

Com um ritmo certo e já com as pernas mais soltas, fui palmilhando o trilho junto ao rio. Passo por um elemento da organização que me diz que o atleta à minha frente está a cerca de um minuto (“porreiro”). Momentos depois começo a avistá-lo numa longa recta, consigo apanhá-lo e rapidamente o deixo. Mais à frente dizem que o atleta terceiro colocado esta a cerca de dois minutos, “isto esta a correr bem, será que estou a abusar nos ritmos? Mas sinto-me bem, pelo menos vou tentar manter este sem entrar em grandes euforias ainda faltam muitos quilómetros…”.

Começo a ver a camisola laranja mais à frente e ali está ele.  Com os olhos na “presa” vou-me aproximando e como me aproximei continuei. Em cerca de 8km tinha já recuperado 2 lugares.

Espetáculo já estou no pódio, agora vamos lá gerir porque os da frente já não devo conseguir apanhar…”

Momentos depois já ao passar uma estrada um BTTista diz-me que o segundo está a 2/3 minutos à frente (“pois sim, deves ter cá um noção de tempo!!! Eles já devem ir bem longe.”)

Era momento de entrar num single track fantástico com altos e baixos, e curvas e contra-curvas, mesmo divertido e nada aborrecido como algumas rectas anteriores. Com o espirito entretido naquele trilho nem dou conta bem do ritmo que levo, só estava a gozar aquele momento, até que passando uma pequena linha de água avisto o segundo classificado (“afinal até estava relativamente próximo, o BTTista sempre tem a noção do tempo…).

Colo-me a ele, e deixo-me ir assim durante um pouco, queria “descansar” o ritmo que levava, respirar e beber um gel para repor algumas energias gastas, mas pouco depois e perante uma longa reta decido “apertar” de novo o ritmo, ainda faltavam cerca de 11km para o final mas tinha que me ir embora não podia partilhar muito mais tempo com ele, se queria fazer diferença aquele era o momento. Não foi fácil, o Luís deu luta e “vendeu” bem cara a minha decisão. Durante bastante tempo a sua camisola não saiu das minhas costas nem da minha linha de vista, até que depois de umas subidas seguidas começou a “desprender” (“não posso parar, tenho que continuar, vá mais um esforço, vá perninhas não me falhem agora, coragem nós conseguimos, só mais um pouco, força raios vamos, não tarda poderemos descansar…” estes pensamentos eram repetidos continuamente na minha cabeça).

A parte final naquela lama toda e já com o desgaste que vinha acumulando foi um martírio. Os pés não tinham “chão seguro”, o esforço para conseguir manter o ritmo dentro daquela lama e ao mesmo tempo passar atletas que estavam caminhando era muito complicado.

Entro no parque de lazer, o pavilhão está perto e com ele o pórtico de chegada e o ponto final nesta aventura, mais um esforço e tudo estará terminado…

Sabia que não iria ser fácil desde o início e depois de tanto momento atribulado, não deixaria em momento algum de ajudar um companheiro de corridas para ganhar um “caco” ou uma “medalha de cortiça” quando este precisava de auxílio. O espirito do desporto para mim é este mesmo, nesta prova ajudei o Hélder, numa próxima pode ser o Hélder a ajudar-me. Espero voltar a vê-lo o mais breve possível numa nova linha de partida. Em suma, fiquei muito satisfeito com a minha prova diverti-me imenso naqueles trilhos e consegui por momentos (breves) admirar aquele fantástico Castelo. 

 

Albino Magalhães

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